Capítulo 4
Linha e Agulha
Tradução do original em espanhol. Ler o original
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- Violência
- Sangue
- Morte de um animal
- Ferimentos
Kaleb estava com a cabeça apoiada na janela.
Lá fora, a estrada serpenteava entre colinas baixas. A névoa se arrastava pelo chão e não deixava ver além de alguns metros. O céu tinha o mesmo cinza daquela manhã, e da manhã anterior.
— Alguém lembra a última vez que viu o sol? — perguntou.
— Já te disse, em Barovia o sol não nasce — disse Laghai, sem abrir os olhos.
Kaleb se virou para Ireena, como se esperasse que ela o desmentisse.
— Tem dias mais claros que outros — disse ela. Pensou um momento. — Mas não. Nunca vi.
Kaleb a olhou, incrédulo.
— Nunca?
Ireena balançou a cabeça.
Alexis, sentada na frente dela, imaginou uma pequena Ireena brincando com seu cachorro nos jardins da mansão, debaixo daquele céu cinzento. Achou um pouco triste.
Depois de um tempo, a paisagem começou a mudar. À esquerda da estrada surgiram umas pedras cinzentas que despontavam entre o mato alto. No começo eram poucas, espalhadas e meio escondidas pela vegetação, mas à medida que avançavam foram ficando mais numerosas.
O que parecia ser um cemitério se estendia por hectares. As lápides despontavam da névoa como dentes quebrados, ao lado de mausoléus enferrujados e anjos de asas partidas.
— Que lugar mais alegre — murmurou Kaleb.
Ali a bruma parecia mais densa. Vários corvos observavam a carroça do alto de umas estátuas, imóveis, sem grasnar. Só se ouvia o sacolejar das rodas e os cascos dos cavalos na estrada molhada.
Uma pequena figura apareceu no meio da estrada.
Sinnos puxou as rédeas com força. Os cavalos pararam, inquietos, sacudindo as crinas.
— Mas que diabos…? — murmurou.
Era um menino de no máximo oito ou nove anos. Ergueu a cabeça ao ouvir a carroça. Tinha o rosto sujo, marcado de lágrimas, e a roupa encharcada e rasgada, como se tivesse corrido pelo meio dos arbustos.
Olhou para eles com olhos grandes e assustados. O lábio inferior tremia.
— Me ajudem — disse com a voz embargada. — Por favor… não consigo achar meus pais.
Ireena se ergueu no assento.
— Temos que ajudar. É só uma criança.
Alexis franziu a testa.
— Ireena, fica…
Mas Ireena já estava abrindo a portinhola.
— Não podemos deixá-lo aqui. E se acontecer alguma coisa com ele?
O menino começou a se aproximar da carroça com passinhos pequenos e inseguros.
Arrastava os pés sobre as folhas úmidas, e cada passo parecia lhe custar.
— Por favor — repetiu, quase sem voz. — Estou perdido. Está tão frio… Não sei onde estão a mamãe e o papai.
O grupo ficou tenso. Até Kaleb tinha parado de sorrir.
Mas Ireena já tinha se inclinado para fora da porta da carroça e lhe estendia a mão.
— Vem cá, pequeno. Agora você está seguro.
O menino ergueu os olhos para ela e sorriu. Foi um sorriso breve, que durou um instante a mais.
Aconteceu num piscar de olhos. A pele do menino ficou acinzentada como a de um cadáver, os olhos se esvaziaram e a boca se abriu impossivelmente larga, mostrando dentes enegrecidos. Os dedos se alongaram em garras enquanto o corpo inteiro se retorcia e estalava diante deles como uma marionete quebrada.
E então, do meio das lápides, começaram a surgir pelo menos mais uma dúzia de criaturas.
— Carniçais! — gritou Sinnos.
O carniçal-menino sibilou, com as garras estendidas para Ireena. Ela recuou com um grito abafado.
Alexis saltou pela portinhola com as espadas já desembainhadas e deteve o primeiro golpe de garra quase sem pensar.
— Ireena, fica para trás! — gritou.
Os carniçais chegavam de todas as direções. O cheiro de terra revirada e decomposição ficou insuportável.
Em volta da carroça, era só aço contra carne podre.
O martelo de Sinnos desceu sobre um que se arrastava em direção aos cavalos. O golpe fez o chão tremer.
Kaleb subiu no teto da carroça com seu arco. Laghai já deslizava na direção de um par de carniçais.
Alexis desviou outro ataque do carniçal-menino e buscou o pescoço dele com a lâmina. A criatura caiu com um gemido gutural.
Por cima do ombro, conseguiu ver Ireena na portinhola, paralisada, com a rapieira do pai apertada contra o peito.
Mais dois surgiram de trás de um túmulo tombado, mais rápidos que os outros. Alexis mal conseguiu se virar. Bloqueou as garras do primeiro com uma espada e cravou a outra no pescoço dele; afastou-o com um chute enquanto já se voltava para o segundo.
Um carniçal maior que os outros, vestindo farrapos do que um dia tinham sido roupas de nobre, contornou a carroça. Seus olhos mortos se fixaram nos cavalos.
Saltou sobre Miladi. As garras afundaram no pescoço dela, e o sangue jorrou, escuro e abundante.
O relincho de Miladi cortou o ar.
Alexis correu até ela, mas havia dois carniçais no caminho. Cortou um, desviou do outro. Quando chegou, já era tarde.
Miladi caiu de joelhos, com o carniçal ainda agarrado ao seu pescoço. Os olhos tranquilos que na noite anterior tinham olhado para Ireena se apagaram.
Alexis cravou as duas espadas nas costas da criatura. Ela se contorceu e caiu.
— Alexis! — gritou Kaleb.
Uma dor ardente atravessou seu flanco. Sentiu as garras rasgarem o couro da armadura, a pele, mais fundo.
Um grito rouco lhe escapou.
Uma flecha atravessou o peito do carniçal que a tinha ferido. A criatura não voltou a se mexer.
Depois, só restaram as respirações ofegantes do grupo e o cheiro de sangue no ar úmido.
Alexis cambaleou, apertando o flanco. O sangue escorria entre seus dedos.
Sinnos se aproximou e examinou o ferimento com olhar crítico. Kaleb já estava ao lado dela, pressionando um pano contra o corte.
— Precisamos ir embora já — disse Sinnos, olhando para a estrada. — Com sorte, achamos um lugar para dormir antes do anoitecer.
Laghai cortava as correias que prendiam Miladi à carroça. O cavalo marrom continuava tremendo.
— Alexis… — Ireena tinha descido da carroça, com o rosto branco. — Você está sangrando.
— Estou bem.
Mas os olhos de Ireena já tinham ido para Miladi. A poça de sangue escuro se espalhava debaixo do corpo imóvel. As manchas brancas do focinho estavam tingidas de vermelho.
— Não! Miladi! — gritou Ireena, chorando. — Eu… eu só queria ajudar o menino. Eu não sabia…
Laghai passou ao lado dela, segurando Alexis pelo braço.
— Não dá para confiar em ninguém. Não seja ingênua — disse, cortante.
Subiram na carroça em silêncio.
Ireena foi a última a subir. As lágrimas continuavam escorrendo pelo rosto, mas ela já não fazia barulho ao chorar.
Dentro da carroça, ninguém falou. O cavalo que tinha sobrevivido puxava sozinho, com passos nervosos, e Sinnos o guiava com cuidado, evitando movimentos bruscos.
O tempo se arrastava. Cada vez que uma roda caía num buraco, Alexis soltava um gemido que tentava engolir. Ireena não conseguia parar de olhar para a mão apertada contra o flanco.
A luz cinzenta do dia começou a se apagar.
— Ali — disse Sinnos, por fim.
Na névoa surgiu uma construção de madeira de dois andares, com luzes fracas nas janelas. Uma placa pendurada dizia “A Raposa Prateada” em letras desbotadas.
Sinnos parou a carroça diante da entrada. Pulou para o chão e ajudou Alexis a descer.
Lá dentro, o calor e o cheiro de comida os envolveram de uma vez. Alguns fregueses ocupavam mesas espalhadas, e o fogo da lareira crepitava baixo.
— Quantos quartos? — perguntou o estalajadeiro, um homem corpulento de barba descomunal, sem levantar os olhos do livro de registros.
— Dois — respondeu Sinnos, largando algumas moedas sobre o balcão. — E uma garrafa da sua bebida mais forte.
O estalajadeiro ergueu uma sobrancelha, mas tirou uma garrafa de debaixo do balcão.
Kaleb deu uma risada.
— Sério, Sinnos? Agora é hora de beber?
Sinnos lhe lançou um olhar seco.
— É para limpar a ferida. Não seja idiota. — Virou-se para Alexis. — Vai precisar de ajuda?
— Consigo sozinha, obrigada. — Alexis pegou a garrafa e uma das chaves.
Subiu a escada devagar; cada degrau lhe arrancava uma careta.
O grupo se espalhou pelas mesas. Kaleb pediu comida. Sinnos se largou numa cadeira com um bufo. Laghai ficou perto da porta, observando.
Pancracio se aproximou de Ireena.
— Você devia descansar.
Ireena não respondeu. Tinha ficado olhando para a escada.
— Ireena.
Ela piscou.
— O quê?
— Que você devia descansar. Foi um dia… difícil.
Ireena assentiu.
O quarto era pequeno, mas limpo: duas camas estreitas, uma mesa, uma jarra com água.
Alexis deixou a garrafa sobre a mesa e começou a tirar a armadura com movimentos desajeitados. O couro estava encharcado de sangue seco e grudava na ferida. Quando enfim conseguiu tirá-la, deixou-a cair no chão com um baque surdo. Desabotoou a camisa: três cortes profundos atravessavam seu flanco.
Tirou da mochila agulha, linha e ataduras.
Sentou-se na beira da cama e derramou a bebida direto sobre a ferida.
A dor a atravessou como um raio. Cerrou os dentes para não gritar, agarrada à beira da cama.
Respirou. Uma, duas, três vezes. Esperou a dor se tornar algo mais suportável.
Enfiou a linha na agulha com dedos que ainda tremiam e a aproximou da ferida, buscando o ângulo para costurar o próprio flanco.
A porta se abriu.
— Alexis, eu… — Ireena parou de repente.
Alexis se virou de uma vez, ainda com a agulha na mão e a camisa aberta.
— Você não sabe bater na porta?
Ireena fechou a porta atrás de si e se aproximou depressa.
— O que você está fazendo?
— O que parece — respondeu Alexis, tentando soar despreocupada. — Me costurando.
— Sozinha.
— Não é a primeira vez.
Ireena olhou a ferida, depois a agulha naquela mão que tremia, depois o rosto dela.
— Deixa eu te ajudar.
— Você não precisa…
— Eu sei costurar — interrompeu Ireena, e estendeu a mão.
Alexis hesitou. Estudou-a por um momento. Depois lhe entregou a agulha.
— Está bem.
Ireena lavou as mãos com a bebida e se sentou na beira da cama. Olhou a ferida, que ainda sangrava, e respirou fundo.
O primeiro ponto foi hesitante. Alexis ficou tensa, mas não fez nenhum som. O segundo foi mais firme. No terceiro, Ireena já tinha encontrado o ritmo.
— Foi culpa minha — disse Ireena em voz baixa. Suas mãos não pararam. — O que aconteceu com a Miladi.
Alexis demorou a responder.
— Era uma armadilha.
— Mas eu fui ingênua — disse Ireena. — Porque eu não sei nada. Nem sequer consegui…
Mordeu o lábio.
— Nem sequer conseguiu o quê?
— Eu não sei lutar — terminou, e voltou à ferida. — Não sei me defender. Sinto que não sirvo para nada.
— Você está costurando uma ferida agora mesmo.
Ireena continuou trabalhando em silêncio, com pontos cada vez mais seguros.
— Me ensinaram isso na escola — disse depois de um tempo. — Para ser uma boa esposa. Para costurar a roupa do meu marido, bordar coisas bonitas para a casa. — Havia um tom amargo em sua voz. — Não para… isto.
— Mas serviu.
— Acho que sim.
Alexis a observou trabalhar. As mãos dela já não tremiam.
— Ireena, você não é inútil — disse.
Ireena não disse mais nada. Terminou o último ponto e cortou a linha. Tinha as mãos manchadas de sangue, mas o trabalho estava feito: os pontos estavam um pouco irregulares, mas firmes.
— Pronto — sussurrou.
Ficaram assim por um momento, Ireena ainda inclinada sobre a ferida, os dedos roçando a pele de Alexis enquanto conferia o trabalho.
— Obrigada — disse Alexis.
Ireena assentiu e começou a enfaixá-la. Quando terminou, continuou sentada, olhando para as mãos manchadas.
— Você devia se lavar — disse Alexis, ajeitando a camisa.
— É.
Mas não se mexeu.
— Alexis?
— Hum?
— Você poderia… me ensinar? — Ireena a olhou direto nos olhos. — A me defender.
Ainda tinha os olhos vermelhos de chorar.
Alexis sustentou o olhar dela por um momento.
— Posso te ensinar umas coisas.
Um pequeno sorriso se desenhou no rosto de Ireena.
Fim do capítulo
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