Capítulo 5
Primeira Lição
Tradução do original em espanhol. Ler o original
Alexis abriu os olhos na escuridão do quarto. O frio entrava pelas paredes de madeira, e cada respiração virava vapor. Na outra cama, Ireena dormia enrolada em cobertores até o queixo.
Ela não tinha conseguido dormir. Toda vez que fechava os olhos, voltavam as garras, os dentes enegrecidos, o cheiro de terra revirada. E o grito de Miladi. Tinha passado a maior parte da noite olhando para o teto, ouvindo os roncos de Sinnos através da parede.
Levantou-se com cuidado. Os pontos do flanco repuxaram quando ela se sentou, e ela teve que ficar um momento sentada, respirando, antes de se pôr de pé. A madeira rangeu sob seus pés, mas Ireena não se mexeu. Vestiu-se em silêncio, ajustando a armadura de couro com movimentos treinados, e saiu.
Laghai estava encostado na parede do corredor, imóvel na penumbra. Seus olhos a seguiram quando ela passou, mas ele não disse nada. Alexis fez um breve aceno com a cabeça e seguiu para a escada.
Lá embaixo, o salão estava vazio. O fogo da lareira tinha se reduzido a umas brasas que mal iluminavam as mesas. Alexis o atravessou e saiu pela porta dos fundos.
O ar lá fora a atingiu como um soco gelado. A névoa, espessa como sempre, se arrastava entre as árvores.
Ao lado do estábulo havia um terreno aberto, coberto de grama úmida. Da pilha de lenha encostada na parede, ela escolheu dois paus retos e firmes. Sopesou-os, testou o equilíbrio. Não eram perfeitos, mas serviriam.
Tirou a capa, deixou-a sobre a cerca e começou a se aquecer. Alongou os músculos que ainda reclamavam do dia anterior, girou os braços, flexionou os pulsos. Toda vez que girava o tronco, o flanco lembrava dos pontos. Fez assim mesmo.
Quando sentiu o corpo pronto, voltou para dentro.
Laghai continuava no corredor. Provavelmente não tinha se mexido nem um milímetro.
Alexis abriu a porta do quarto. Ireena agora dormia de lado, com o cabelo ruivo espalhado sobre o travesseiro.
— Ireena — disse em voz baixa.
Nenhuma resposta.
— Ireena — repetiu, um pouco mais alto, e tocou o ombro dela.
Um resmungo indecifrável saiu do meio dos cobertores.
— Você disse que queria treinar.
— Hmm… que horas são? — murmurou Ireena, sem abrir os olhos.
— Hum… é cedo. Mas se você quiser continuar dormindo…
Ireena abriu os olhos de repente e se sentou.
— Não, não. Me dá um minuto, por favor.
Levantou-se, se enroscou nos cobertores e começou a se vestir às pressas. Alexis se virou para a porta para lhe dar privacidade.
— Pronto — anunciou Ireena depois do que foram, no mínimo, cinco minutos.
Desceram juntas. Laghai as viu passar sem nenhum comentário.
Lá fora, o frio fez Ireena estremecer.
— Que frio — murmurou, ajeitando a capa. Reparou que Alexis estava só com a armadura de couro. — Como você não congela?
— Tem que se mexer. Em poucos minutos você não vai sentir tanto frio.
Caminharam até o terreno. A escuridão começava a ceder, só um pouco, àquele cinza pálido que em Barovia se passava por dia. As árvores eram formas negras contra um céu um pouco menos negro.
Alexis pegou os dois paus.
— Antes de começar — disse, estudando Ireena —, preciso que você relaxe.
— Eu estou relaxada.
Alexis apontou para os ombros dela.
— Você está toda tensa, Ireena.
Ireena olhou para si mesma, como se só agora notasse a rigidez do próprio corpo, e tentou se soltar à força.
— Não… não… assim não — disse Alexis.
— Então como? — perguntou Ireena.
Alexis segurou os ombros dela e apertou com os polegares bem onde eles encontravam o pescoço.
— Sentiu isso? Está duro.
Ao toque, Ireena ficou ainda mais rígida.
— Agora piorou — disse Alexis.
Ireena soltou uma risada curta, e algo nos ombros dela cedeu.
— Melhor — aprovou Alexis, e a soltou. — Agora, os paus.
Foi buscá-los e lhe entregou um.
— Vamos praticar com isto porque, no começo, é perigoso treinar com armas de verdade. Quando você tiver mais controle, vai poder usar a sua rapieira.
Ireena assentiu enquanto pegava o pau.
— A primeira coisa é aprender a segurar — continuou Alexis. — Olha.
Mostrou a empunhadura: os dedos firmes em volta, mas sem rigidez. Ireena a imitou.
— Isso. Agora, a posição defensiva.
Alexis afastou os pés e segurou o pau na diagonal à sua frente, pronta para bloquear.
— Seu primeiro instinto sempre tem que ser se defender. Antes de pensar em atacar, você tem que conseguir se proteger.
Ireena tentou copiar a postura. Ficou torta, mas era um começo.
— Mais peso na perna de trás — corrigiu Alexis.
Ireena moveu o pé para o lado errado. Alexis se aproximou e empurrou o tornozelo dela com a ponta da bota até colocá-lo no lugar.
— Isso. E o pau mais alto. Ele tem que cobrir o tronco e a cabeça.
Fizeram vários ajustes até que a posição ficou aceitável.
— Bom. Agora eu vou te atacar, bem devagar, e você só tem que bloquear. Pronta?
Ireena assentiu, embora tivesse voltado a ficar rígida.
— Respira — lembrou Alexis.
Avançou e desferiu um golpe lento em direção ao ombro direito de Ireena.
Ireena levantou o pau, mas tarde demais e no ângulo errado. O pau de Alexis a tocou antes que ela pudesse se defender.
— Muito lenta. De novo.
Repetiu o mesmo ataque, do mesmo ângulo. Dessa vez Ireena reagiu um pouco antes, mas o bloqueio continuava fraco.
— Você tem que pôr força. Não é só levantar o pau: empurra contra o meu ataque.
Atacou de novo. Dessa vez o bloqueio foi mais firme.
— Melhor. De novo.
Continuaram assim. Alexis variava os ataques: alto, baixo, esquerda, direita, sempre devagar, sempre dando tempo para ela reagir. No começo, Ireena errava a maioria dos bloqueios. Depois, quase sem que nenhuma das duas percebesse, começou a errar menos.
O céu foi clareando, do preto ao cinza-escuro e do cinza-escuro ao cinza pálido. A névoa continuava espessa, mas já dava para ver os rostos. Em algum lugar ali perto, os corvos começaram a grasnar.
— Você está melhorando — disse Alexis depois de um bloqueio especialmente bom. — Agora vou um pouco mais rápido.
Acelerou o ritmo, sem chegar a sobrecarregá-la. Ireena teve que se esforçar mais, e a respiração ficou pesada, mas continuava bloqueando.
— Bom — disse Alexis depois de uma série de bloqueios. — Você está antecipando melhor. Agora…
Lançou um ataque à meia altura. Ireena o bloqueou com um movimento cada vez mais natural. Mas, em vez de parar ali, o corpo dela seguiu sozinho: do bloqueio passou a um contra-ataque rápido, sem pensar.
O pau de Ireena acertou o flanco de Alexis com um golpe seco.
Bem onde estavam os pontos.
Alexis se dobrou, com o ar escapando entre os dentes, e levou a mão à ferida.
Ireena soltou o pau, com os olhos arregalados.
— Não! Desculpa! Desculpa! — Aproximou-se correndo. — Você está bem? Eu não quis… eu não… só aconteceu e…
— Espera, espera — disse Alexis, levantando uma mão. Ainda não conseguia se endireitar.
— A ferida… Me desculpa, de verdade, eu…
— Ireena.
O tom a fez parar.
Alexis respirou fundo algumas vezes e se endireitou devagar. Apalpou o flanco por cima do couro. Não sentia umidade: os pontos tinham aguentado.
— Isso foi muito bom — disse, e o sorriso venceu a careta de dor.
— O quê? Mas eu te…
— Você me acertou. Sim. Bloqueou e contra-atacou sem pensar. É exatamente isso que você tem que fazer numa luta de verdade.
Ireena piscou.
— D-de verdade? Eu fiz certo?
— Você fez certo.
— Eu fiz certo! — repetiu Ireena, cada vez mais alto, e de repente estava rindo, uma risada aberta, sem nenhum cuidado. — Eu te acertei! Eu te acertei de verdade!
— Sim…
— Desculpa! Mas também… não peço desculpa! Porque foi bom. Você disse que foi bom.
Alexis riu também, embora cada gargalhada repuxasse os pontos.
Um aplauso lento as fez virar.
Kaleb estava encostado no batente da porta dos fundos, com um sorriso zombeteiro, aplaudindo.
— Que belo espetáculo — disse. — Mas o Sinnos disse que a gente sai em meia hora. Vão tomar café.
— Já vamos — respondeu Alexis.
Ireena, ainda eufórica, foi recolher os paus e a capa de Alexis.
— Sabe — disse Kaleb, aproximando-se de Alexis —, estou começando a achar que esses treinos vão ser muito divertidos de assistir.
— Você não está convidado — respondeu Alexis, seca.
— Veremos. — Kaleb piscou para ela e entrou na taverna.
Alexis ficou olhando para ele de cara fechada.
— Obrigada, Alexis — disse Ireena enquanto ajeitava a capa sobre a armadura dela. — Por me ensinar e por não ficar brava quando eu te acertei.
— Não tem motivo nenhum para eu ficar brava. Você fez exatamente o que tinha que fazer. — Alexis fez uma pausa e olhou para ela. — Mas da próxima vez eu gostaria de ser avisada.
Ireena deu uma risadinha.
Lá dentro, o grupo já estava em volta de uma mesa. Sinnos mastigava pão enquanto examinava um mapa amassado. Laghai bebia chá quente de uma caneca de metal. Pancracio ajustava as alças da mochila com meticulosidade.
Todos levantaram os olhos quando elas entraram.
— Ah, as madrugadoras — disse Sinnos. — Como foi o treino?
— Eu acertei a Alexis — respondeu Ireena, sorridente, antes que Alexis pudesse abrir a boca.
Houve um silêncio.
— Você acertou…? A Alexis? — repetiu Sinnos, olhando de uma para a outra.
— Bem nos pontos — acrescentou Kaleb, sentando-se. — Eu vi tudo.
— Foi um ótimo contra-ataque — disse Ireena, radiante.
Na frente dela, Alexis se sentava com dificuldade. Ireena tapou a boca.
— Desculpa.
Laghai ergueu os olhos da caneca pela primeira vez naquela manhã.
— Bom.
— Olha só. — Sinnos estudou Ireena com algo parecido com respeito. — Quem diria?
— A senhorita deve ter um talento natural, Ireena — disse Pancracio enquanto lhe passava uma xícara de café.
Ireena se virou para ele, lisonjeada.
— Obrigada, Pancracio.
— Bom, meia hora — disse Sinnos, de novo em tom de comando. — Comam rápido. Temos muito caminho pela frente.
O café da manhã seguiu entre barulho de pratos. De vez em quando, Alexis reparava que Ireena fazia pequenos movimentos com as mãos debaixo da mesa, como se repetisse o bloqueio e o contra-ataque.
E de vez em quando, quando os olhares delas se cruzavam, Ireena sorria.
E Alexis se pegava sorrindo de volta.
Fim do capítulo
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